Boas perspectivas na economia devem causar aceleração do mercado de capitais em 2019

Realizado pelo Estadão, em São Paulo, Market Day juntou prestadores de serviço com empresas interessadas em ter acesso a essa fonte de financiamento, que cresceu nos últimos dois anos

Ademar Couto, sócio-diretor da empresa de seleção de executivos Odgers Berndtson, tem uma percepção bem clara quando conversa com seus clientes, controladores de empresas familiares: para eles, o acesso ao mercado de capitais é difícil, complicado e caro. Se, muitas vezes, eles não conseguem falar com os grandes bancos quando precisam de financiamento, o que dirá com todo o mercado?

Para os palestrantes do Market Day, que foi realizado na quarta, 28, essa é uma barreira cultural e de falta de informação, mais do que real. Iniciativa do Estadão para aproximar empresas do mercado, o evento juntou prestadores de serviços com empresas interessadas nessa alternativa de financiamento no Palácio Tangará, em São Paulo.

“Se o produto for bom, ele vende: é só colocar na prateleira certa”, afirmou Antonio Pereira, chefe do Investment Banking do Goldman Sachs no Brasil. “Estamos num momento positivo, do ponto de vista macroeconômico e da política, com diferentes indústrias vendo a luz no fim do túnel.”

A jornalista Eliane Cantanhêde, colunista do Estadão, traçou um grande panorama do ponto de vista político, mostrando as perspectivas do novo governo. Apesar de a pauta liberal do futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes, ser bem vista pelo mercado, ainda há diferentes incógnitas, sobretudo na relação do presidente eleito Jair Bolsonaro com o Congresso. Historicamente, porém, os primeiros meses devem ser positivos para aprovação de reformas e a consequente retomada econômica.

Apesar da reticência dos empresários com relação a uma ida ao mercado de capitais, essa alternativa de financiamento deveria ser levada em consideração por todas as empresas que têm planos de investir e crescer, disseram os especialistas. “O mercado de capitais pode não ser a melhor alternativa em todos os momentos, mas definitivamente tem de estar na mesa de todas as companhias”, disse Tiago Curi Isaac, superintendente de Relacionamento com Empresas da B3.

Hoje, apenas 13% das empresas se financiam via mercado de capitais, mas o percentual vem crescendo, principalmente com a redução da presença das linhas do BNDES como alternativa de crédito. Há quatro anos, só 9% das empresas usavam o mercado. Já a participação do banco de investimento caiu de 15% do total para 5% no período.

Ciclo de ganhos
Segundo Curi, além de o mercado de capitais ser uma alternativa de financiamento muitas vezes mais barata do que a bancária, os efeitos colaterais causados pela busca desse tipo de recurso produzem um círculo virtuoso na gestão das empresas. Entre eles, estão os ganhos trazidos por processos formais de governança, transparência e prestação de contas.

“Das 20 maiores empresas da ‘Gazeta Mercantil’, em 1984, nove desapareceram. Se aumentarmos o número para as 100 maiores, 52 sumiram”, afirmou Sidney Ito, sócio em Riscos e Governança Corporativa no Brasil e na América do Sul da consultoria KPMG. “Companhias podem desaparecer por questão de negócios, como fusões, aquisições e incorporações, mas existem várias que somem por problemas de gestão e principalmente por falta de práticas de boa governança.”

Além de atrair investidores, os controles melhoram a precificação da empresa, facilitam o processo de sucessão familiar e a profissionalização e reduzem riscos com perdas, fraudes e de reputação.

Esses processos também atraem outras formas de investimento, como os private equities, como são chamados os fundos que investem em empresas fechadas. “Os private equities ajudam as empresas investidas a implementar políticas de boa governança e a acabar com a informalidade”, afirmou Mauro Cesar Leschziner, sócio nas áreas de M&A e private equity do escritório Machado Meyer. “Além disso, melhoram também a gestão porque se tornam um parceiro do negócio.”

Palestrantes

Tiago Curi Isaac
Superintendente de Relacionamento com Empresas da B3

“O mercado de capitais é, definitivamente, uma alternativa para as empresas brasileiras poderem se financiar e crescer. Pode não ser a melhor alternativa em todos os momentos, mas ela tem de estar na mesa de todas as companhias. O custo de um IPO (Oferta Pública Inicial) gira em torno de 4% a 5% do valor total da oferta, e os gastos recorrentes, derivados dessa abertura de capital, ficam em algo próximo de 0,2% da receita líquida anual.”

 

Antonio Pereira
Chefe do Investment Banking do Goldman Sachs no Brasil

“Apesar de a perspectiva de crescimento de 2,5% do PIB em 2019 não ser muito grande para uma economia como a nossa, o importante é que o ano marcará o início do crescimento de verdade: a tendência inverteu. Já os juros abaixo de 10%, para o mercado de capitais, significam uma migração maior para a renda variável. Como no Brasil a renda fixa é a categoria dominante, o dinheiro vai ter de trocar de casinha.”

 

Sidney Ito
Sócio em Riscos e Governança Corporativa no Brasil e na América do Sul da KPMG

“A boa governança tem múltiplas funções. Serve para ajudar a atrair investidores, reduzir o spread bancário e as garantias exigidas num empréstimo, melhorar a precificação na venda da empresa a um fundo de private equities ou na abertura de capital, reduzir custos com seguros, facilitar o processo de sucessão familiar e a profissionalização, bem como reduzir os riscos com perdas, fraudes, de contingência e reputacionais.”

 

 

Mauro Cesar Leschziner
Sócio nas áreas de M&A e private equity do escritório Machado Meyer

“Temos visto neste ano uma mudança no pensamento dos administradores e gestores dos fundos de private equity, que têm olhado muito mais para investimentos defensivos. Eles estão procurando setores como educação e saúde e olhando menos áreas mais sujeitas a oscilação de mercado, como o varejo. A tendência é que isso mude no ano que vem: com a economia melhorando e as incertezas diminuindo, os fundos vão voltar a investir em empresas não tão defensivas.”

 

 

Ademar Couto
Sócio-diretor da empresa de seleção de executivos Odgers Berndtson

“O executivo de uma empresa que vai receber investimento tem de ter capital intelectual e emocional. Se ele for para uma reunião com um fundo de private equity ou com um banco de investimentos e não souber responder perguntas básicas, seja de gestão, financeiras ou estratégicas, já era. Com o capital emocional é a mesma coisa: se ele não tiver a compreensão do momento certo para ir ao investidor, ele vai queimar a empresa.”

 

Postado em 29 de novembro de 2018 em Sem categoria

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