Como os fundos de infraestrutura transformam o financiamento do País — e o que vem pela frente
Instrumentos ampliaram a participação do capital privado em grandes projetos e ganharam espaço na viabilização de obras
A construção da infraestrutura de um País não é feita apenas com cimento, aço e máquinas pesadas; ela exige, sobretudo, arquitetura financeira. É preciso um vultoso volume de recursos para que grandes projetos de longo prazo saiam do papel e, historicamente, o Brasil dependeu de orçamentos públicos apertados e de empréstimos concedidos por bancos estatais para erguer portos, rodovias e redes de energia.
Na última década, no entanto, houve uma mudança nessa engrenagem com o avanço dos fundos de investimento em infraestrutura. Essa modalidade conseguiu conectar diretamente a poupança dos investidores a projetos de desenvolvimento nacional. Transformou, assim, o mercado de capitais em uma peça central da nossa economia.
Mas qual a origem desses tipos de investimentos, como eles se desenvolveram e o que esperar daqui para frente? A seguir te contamos mais sobre tudo isso.
Por que os fundos de infraestrutura foram criados?
A semente dessa transformação foi plantada com a criação da Lei nº 12.431/2011, que instituiu as debêntures incentivadas. Até então, a forma tradicional de financiamento à infraestrutura no Brasil era baseada nas linhas de crédito bancário, em especial de bancos públicos, e principalmente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas a dimensão dos investimentos necessários para universalizar o saneamento, expandir a matriz energética limpa e duplicar rodovias tornou indispensável ampliar a participação do capital privado.
Antes, o BNDES emprestava dinheiro com base na antiga Taxa de Juros de Longo Prazo, uma taxa subsidiada pelo Tesouro Nacional que ficava muito abaixo da taxa básica de juros (Selic). Com isso, o governo conseguia cobrir a diferença com dinheiro público para baratear os empréstimos das grandes empresas. Em 2017, no entanto, foi aprovada a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP), que passou a ser atrelada ao mercado (IPCA + juros dos títulos públicos). Ao acabar com o subsídio estatal, o custo do financiamento do BNDES se alinhou às taxas praticadas pelo mercado financeiro privado, tirando o monopólio do banco público e abrindo espaço para a concorrência.
Empresas concessionárias perceberam que captar dinheiro emitindo títulos na B3 para milhares de investidores era, muitas vezes, mais rápido, mais barato e menos burocrático do que passar pelos longos processos de aprovação do BNDES. O banco de fomento passou então por uma redefinição estratégica: em vez de ser o financiador principal que emprestava até 80% do valor de uma obra, assumiu o papel de planejador e estruturador de concessões e PPPs.
Hoje, em um grande leilão de saneamento ou rodovia, é comum ver uma estrutura híbrida: o BNDES entra financiando de 20% a 40% do projeto (garantindo uma base ancorada de longo prazo), enquanto os outros 60% a 80% são captados diretamente no mercado de capitais por meio de debêntures e fundos de infraestrutura (FI-Infra).
Esse esvaziamento do BNDES como financiador quase exclusivo da infraestrutura combinou, quase de forma concomitante, com a ascensão do mercado de capitais privado. O apetite dos investidores e empresas por diversificar e buscar investimentos mais rentáveis ao longo deste mesmo tempo contribuiu para que o mercado amadurecesse.
E para atrair ainda mais pessoas e tornar atrativos papéis que travavam o dinheiro por 10, 15 ou 20 anos, a legislação concedeu isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas que investissem nesses títulos de dívida de infraestrutura.
O salto nos números e as razões da expansão
Com tudo isso, o crescimento dessa classe de ativos nos últimos anos foi vertiginoso, consolidando o mercado de capitais como motor do setor produtivo. Dados da Anbima e da B3 mostram que o volume anual de emissões de debêntures incentivadas saltou do patamar de poucos bilhões de reais na década passada para marcas recorrentes acima de R$ 60 bilhões a R$ 80 bilhões ao ano.
Além disso, o número de investidores individuais (pessoas físicas) em FI-Infra e debêntures incentivadas cresceu de forma exponencial, superando a marca de centenas de milhares de cotistas na bolsa de valores brasileira. Ao mesmo tempo, o patrimônio somado dos fundos dedicados à infraestrutura ultrapassou a marca de dezenas de bilhões de reais, impulsionado por centenas de milhares de investidores que passaram a negociar essas cotas no mercado secundário.
Vale comentar também que avanços de regulação contribuíram para a mudança do cenário. Marcos regulatórios modernos, como o do saneamento básico, e uma sequência de leilões exigiram captações de escala bilionária de uma só vez, algo que só o mercado de capitais conseguiu absorver. A própria liquidez criada pela negociação diária de cotas na bolsa reduziu o receio do investidor de ficar preso a ativos de longa maturação.
Entre os vários leilões feitos está o de Saneamento de Pernambuco, realizado em dezembro de 2025, concessão cuja empresa operadora hoje é a Vita Sertão. Na época, o Patria arrematou o lote do Bloco 1 (microrregião do Sertão) da concessão parcial dos serviços de água e esgoto no estado. Por meio de fundo de infraestrutura, a gestora ofereceu R$ 720 milhões em outorga e aplicou o desconto máximo de 5% sobre a tarifa, em um contrato com horizonte de investimentos de cerca de R$ 3,4 bilhões ao longo de 35 anos para universalizar serviços a cerca de 815 mil pessoas em 24 municípios e mais de 200 localidades.
Quais os próximos desafios dos fundos de infraestrutura?
Apesar desse ciclo virtuoso, o amadurecimento do mercado traz novos desafios, especialmente em períodos de taxas de juros elevadas, momento em que os fundos precisam provar constantemente o seu valor e o seu prêmio de risco para continuar atraindo o investidor de varejo.
Outro ponto de atenção é que com o investidor mais ambientado a esses produtos, a atenção se volta para a capacidade de execução das obras previstas. Garantir que os projetos sejam entregues no prazo e dentro do orçamento previsto será decisivo para manter a confiança dos investidores e o ritmo de crescimento do País.