Agronegócio: desafios do setor incluem conectividade e transição energética
Setor busca ampliar crédito, logística e tecnologia diante das pressões climáticas e ambientais
O agronegócio ocupa uma posição de liderança absoluta nos indicadores macroeconômicos do Brasil. Segundo levantamentos consolidados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e pelo IBGE, a cadeia completa do setor responde historicamente por cerca de 20% a 25% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
Esse peso econômico se reflete de forma direta no comércio exterior. O agro é o principal responsável pelos superávits sucessivos da balança comercial brasileira, respondendo por aproximadamente 50% das exportações totais do País.
As vendas externas de commodities como soja, carnes, açúcar, café, algodão e celulose geram dezenas de bilhões de dólares em divisas todos os anos e fortalecem as reservas internacionais — o que ajuda a equilibrar as contas externas.
O setor também desempenha no Brasil um papel social relevante. Estima-se que a atividade agropecuária e seus serviços correlatos empregam cerca de 28 milhões de pessoas, o que representa um terço da força de trabalho ocupada no País. Isso quer dizer que, de forma indireta, o setor impulsiona a renda e o desenvolvimento imobiliário e comercial no interior da nação.
Velocidade de expansão e necessidade de crédito
Mesmo diante de transformações econômicas, climáticas e geopolíticas globais, o agronegócio se consolidou como um dos pilares mais dinâmicos e estratégicos da economia brasileira. E tal desenvolvimento se deu também por uma renovação na maneira como o setor era financiado no mercado nacional.
No passado, o agronegócio era financeiramente dependente de recursos subsidiados pelo governo via Plano Safra. Mas o rápido crescimento da demanda, dentro e fora do País, com o aumento da população global, as vantagens do solo brasileiro e a qualidade técnica reconhecida mundialmente, fez com que a capacidade do orçamento público ficasse aquém da necessária para a evolução do setor.
A mudança abriu espaço, então, para o mercado de capitais do País
Com a criação das Cédulas de Produto Rural (CPRs), dos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e, especialmente, dos Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais), a poupança privada passou a financiar diretamente o campo.
Hoje, investidores individuais e institucionais aportam dezenas de bilhões de reais na compra de títulos do agro atraídos pela rentabilidade e por benefícios fiscais. Esse arranjo garantiu ao produtor rural previsibilidade e agilidade para investir em insumos, máquinas e infraestrutura sem depender exclusivamente do Tesouro Nacional.
Avanço no uso de tecnologia e energia limpa
Impulsionadas pela demanda global crescente por alimentos e energia limpa, as principais tendências e expectativas para o setor incluem vertentes que envolvem tecnologia e pauta verde. Os dois tópicos têm trabalho em conjunto dentro das estratégias das empresas do setor no País para seguirem entre as líderes globais do segmento.
Com a chamada Agricultura 4.0, a expansão do 5G e de redes privadas de conectividade no meio rural aceleram o uso nos campos de inteligência artificial, sensores de solo, drones e maquinários autônomos.
A tecnologia permite que aplicações de precisão de insumos e água, por exemplo, reduzam custos operacionais e elevem a produtividade por hectare.
Na área de transição energética, o Brasil segue na liderança mundial na produção de energia renovável vinda do campo. A expansão do etanol de milho, o avanço do biodiesel e a consolidação do biogás e do biometano a partir de resíduos agropecuários posicionam o setor como peça-chave da descarbonização global.
Em paralelo, a expectativa do mercado é concentrar o aumento da produção na recuperação e intensificação de pastagens degradadas, permitindo elevar a safra de grãos e o rebanho sem a necessidade de incorporar novas áreas de vegetação nativa.
Plantar agora para colher no futuro
Ainda que consolidado mundialmente, o agronegócio brasileiro enfrenta desafios para seguir crescendo e precisa cuidar do que plantar hoje para colher amanhã.
Em termos de infraestrutura logística e capacidade de armazenamento, o ritmo de crescimento da produção agrícola do País continua sendo mais rápido do que a expansão da infraestrutura de escoamento.
O déficit na capacidade de armazenamento de grãos em silos obriga o produtor a vender a safra rapidamente, muitas vezes enfrentando fretes elevados e gargalos no acesso aos portos e malhas ferroviárias. A exigência mundial também têm aumentado com relação às práticas ESG e rastreabilidade de produção.
A pressão de mercados compradores (como a União Europeia) por certificações socioambientais rígidas exige o combate rigoroso ao desmatamento ilegal e a implementação de sistemas auditáveis de rastreabilidade em toda a cadeia produtiva, desde a origem dos insumos até o embarque final. Há ainda um fator que preocupa pela falta de controle humano: as incertezas climáticas.
A maior frequência de eventos climáticos extremos (como secas prolongadas ou chuvas fora de época), aliada à dependência externa de fertilizantes importados, exigem uma gestão de risco cada vez mais apurada por parte dos produtores. Neste sentido, cresce a procura por seguros rurais e operações de hedge financeiro.
Desafios que o setor terá de enfrentar para seguir, não apenas como o grande motor do PIB atual, mas como o garantidor da segurança alimentar e energética dos próximos anos.