Publicidade

Debêntures batem recorde de negociação, com avanço dos títulos incentivados

Mercado secundário movimentou R$ 560 bilhões até julho; circulação dos papéis pode apoiar o financiamento de longo prazo, mas não representa dinheiro novo para obras

Transporte está entre os setores financiados por debêntures incentivadas - Foto: Getty Images
Publicidade
Publicidade

·  Negociações de debêntures somaram R$ 560 bilhões de janeiro a julho de 2026, alta de 16,6% sobre o mesmo período de 2025

·  As incentivadas responderam por 44% do volume negociado e por 60% do aumento das transações

·  Novas emissões financiam projetos; no mercado secundário, investidores negociam títulos já emitidos

O mercado secundário de debêntures, no qual investidores compram e vendem títulos já emitidos, movimentou R$ 560 bilhões de janeiro a julho de 2026. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), foi o maior volume para o período na série analisada, com dados desde 2020, e uma alta de 16,6% sobre os R$ 480,1 bilhões do mesmo intervalo de 2025.

As debêntures incentivadas, usadas no financiamento de projetos prioritários de infraestrutura, responderam por 44% do volume negociado. Também foram responsáveis por 60% do aumento de aproximadamente R$ 80 bilhões nas negociações em relação aos primeiros sete meses de 2025.

Publicidade
Publicidade

Esse movimento não representa uma transferência direta de recursos para obras. A empresa capta dinheiro quando emite os títulos no mercado primário. No secundário, os recursos passam de um investidor para outro. A possibilidade de negociar os papéis antes do vencimento, porém, pode tornar aplicações de longo prazo mais atraentes e apoiar o mercado de financiamento de infraestrutura.

Como as debêntures financiam projetos

Debênture é um título de dívida emitido por uma empresa para captar recursos. Quem compra se torna credor da companhia, nas condições previstas na emissão, que incluem prazo, remuneração e eventuais garantias.

O título prevê pagamentos de juros e devolução do principal conforme essas condições. O cumprimento das obrigações depende da capacidade de pagamento da empresa.

As debêntures incentivadas contam com benefício fiscal para estimular o financiamento de projetos considerados prioritários, em áreas como energia, transporte e saneamento. Para pessoas físicas, os rendimentos são isentos de Imposto de Renda.

Publicidade
Publicidade

Elas diferem das chamadas debêntures de infraestrutura, modalidade criada pela Lei nº 14.801, de 2024, cujo incentivo tributário beneficia a empresa emissora. Embora ambas possam financiar projetos de infraestrutura, possuem regras distintas.

Na emissão, uma concessionária, uma geradora de energia ou uma empresa de saneamento capta recursos para aplicar no projeto, conforme a destinação prevista nos documentos da oferta. Os investidores podem comprar os títulos diretamente, e os fundos também podem adquiri-los para suas carteiras.

Depois, esses papéis podem ser negociados no mercado secundário. A possibilidade de venda permite ao investidor buscar uma saída antes do vencimento, mas não garante que encontrará comprador nem que conseguirá vender pelo valor desejado.

Prazos longos e participação dos setores

Os prazos das emissões ajudam a conectar o mercado de capitais a projetos que exigem recursos por muitos anos. Segundo a Anbima, entre janeiro e maio de 2026, o prazo médio de vencimento dos papéis com benefício fiscal foi de 11,9 anos, ante 5,4 anos nas debêntures corporativas sem benefício fiscal.

Publicidade
Publicidade

No mesmo período, energia elétrica respondeu por 54% das captações com esses papéis, seguida por transporte e logística, com 11,2%, e saneamento, com 10,7%.

Os dados mostram a participação desses setores no financiamento obtido nas novas emissões. Não representam a distribuição das negociações no mercado secundário nem a composição de todo o estoque de títulos em circulação.

O que o recorde de negociação indica

O crescimento do volume negociado acompanha a expansão do próprio mercado. O estoque de debêntures passou de R$ 1,4 trilhão em dezembro de 2025 para R$ 1,6 trilhão em julho de 2026, ampliando a quantidade de ativos disponíveis para negociação.

Para avaliar a intensidade dessa circulação, a Anbima utiliza o giro, indicador que relaciona o volume negociado ao estoque médio de títulos no período. Entre janeiro e julho de 2026, ele ficou em 36,1%, próximo dos 37,4% registrados no mesmo intervalo de 2024.

O indicador não significa que 36,1% dos títulos diferentes trocaram de dono: um mesmo papel pode ser negociado várias vezes. Ele permite comparar o volume das transações com o tamanho do mercado.

As incentivadas apresentaram giro de 39,9% nos primeiros sete meses de 2026, acima dos 33,6% das debêntures corporativas sem benefício fiscal. Assim, além de contribuírem para o aumento do volume negociado, tiveram circulação proporcionalmente maior em relação ao estoque.

Negociação e captação seguem movimentos distintos

O contraste entre os mercados aparece nos dados de janeiro a maio de 2026. Nesse intervalo, as negociações de debêntures incentivadas no secundário somaram R$ 179,4 bilhões, recorde para os cinco primeiros meses do ano e alta de 32,7% sobre igual período de 2025.

Já o volume de ofertas de papéis com benefício fiscal no mercado primário foi de R$ 58,9 bilhões, com queda de 5,8% na mesma comparação. Portanto, o avanço das negociações não foi acompanhado por crescimento das novas emissões naquele recorte.

Segundo Erika Lacreta, gerente de Mercado de Capitais da Anbima, a expansão do mercado secundário reúne três movimentos: aumento dos títulos disponíveis, ampliação da base de investidores e maior circulação dos papéis emitidos.

Para o financiamento de infraestrutura, a relevância está nessa conexão. Projetos de longa duração precisam de capital com prazos compatíveis, enquanto os investidores podem ter necessidade de vender seus títulos antes do vencimento. Um mercado secundário mais ativo pode ajudar a conciliar essas necessidades, embora o financiamento dos projetos continue dependendo da captação realizada pelas empresas.

Publicidade
Publicidade