Por que o investimento privado na infraestrutura pode bater recorde este ano?
Participação crescente do capital privado impulsiona um novo ciclo de investimentos em infraestrutura no País
O mercado de infraestrutura no Brasil vive um momento histórico e caminha para consolidar sua maior marca em investimentos privados. Especialistas, bancos e entidades do setor apontam que os aportes em rodovias, ferrovias, saneamento, energia e aeroportos devem atingir o nível mais alto dos últimos anos. O fenômeno é impulsionado por um novo modelo de financiamento que transferiu o protagonismo das obras públicas, antes dependentes do Orçamento da União ou de aportes robustos do BNDES, para o bolso de investidores particulares.
Os números atestam essa guinada. De acordo com dados da 14ª edição do Barômetro da Infraestrutura, realizado pela consultoria EY-Parthenon em parceria com a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), os investimentos totais no setor somaram R$ 280 bilhões em 2025. Desse montante, a iniciativa privada responde por impressionantes R$ 234,9 bilhões (84% do total), enquanto o setor público arcará com R$ 45,1 bilhões — uma queda real de 11,05% nas verbas estatais.
“A iniciativa privada ampliou seu protagonismo. Esse percentual representa a maior participação proporcional de toda a série histórica iniciada em 2010”, destaca Gustavo Gusmão, sócio da EY-Parthenon. O movimento ocorre justamente pelo aperto no orçamento do governo, que opera com déficit e quase sem espaço para despesas não obrigatórias.
Diante deste cenário, a expectativa é de que os investimentos do setor batam um novo recorde em 2026, impulsionados pelos investidores. Tanto que o Barômetro da Infraestrutura revela que o otimismo dos agentes econômicos para a recepção de novos investimentos atingiu o pico de sua série histórica, alcançando 54,2% de percepção favorável, enquanto as avaliações negativas recuaram para 20,4%.
Motor do crescimento
Para financiar esse avanço sem depender do Estado, o mercado de capitais desenvolveu investimentos que foram abraçados pelos investidores – as debêntures incentivadas (títulos de dívida emitidos por empresas para realizar obras) e os FI-Infra (Fundos de Investimento em Infraestrutura, que reúnem vários desses títulos em uma única carteira, diluindo os riscos para o investidor).
De acordo com dados da Anbima, esses instrumentos registram volumes recordes de captação. O grande atrativo para as pessoas físicas é a isenção de Imposto de Renda sobre os lucros. Com a taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados, a oportunidade de emprestar dinheiro para concessionárias e receber o rendimento totalmente limpo de impostos seduziu o pequeno investidor.
O apetite privado reflete-se no calendário de leilões concorridos na B3. A necessidade de escoamento da forte expansão do agronegócio e a melhora na segurança jurídica — trazida por novos marcos regulatórios — têm atraído empresas nacionais e fundos internacionais.
O setor de saneamento básico, impulsionado pelas metas do Marco Legal do Saneamento, e o de rodovias lideram as disputas, com lances que superam frequentemente o valor mínimo exigido pelo governo.
A agenda ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança) também transformou o País em alvo prioritário para fundos globais, focados em projetos de energia renovável (eólica e solar) e tratamento de água.
Mas, por mais que as expectativas para a infraestrutura estejam positivas para o ano todo, uma maior atuação do governo pode ajudar a impulsionar ainda mais esse crescimento.
“Será necessário criar espaço nos orçamentos públicos, especialmente da União, para que o Estado possa voltar a investir, complementando os investimentos privados via PPPs (Parcerias Público-Privadas)”, observa Gusmão.
Desafios no horizonte
Apesar dos ventos favoráveis, o setor enfrenta gargalos para transformar o dinheiro da Bolsa em asfalto e tubulações. O primeiro é o custo dos materiais, com a inflação de insumos pesados como aço e asfalto. O segundo é o desafio logístico e o licenciamento ambiental, testes de fogo para que o otimismo financeiro se converta em melhoria real na ponta.
Além disso, embora o volume acumulado desde 2021 some R$ 1,4 trilhão — montante 37% superior aos de seis anos anteriores —, o Brasil ainda patina para resolver seu déficit histórico. Pelos cálculos da Abdib, o País precisaria aplicar quase R$ 500 bilhões anuais para modernizar completamente sua estrutura. O recorde da liderança privada mitiga o problema, mas escancara a necessidade de o Estado encontrar espaço fiscal no futuro para atuar de forma complementar por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs).
