Por que os ativos reais ganharam espaço nas carteiras de investimento
Atrelados à economia real, esses ativos oferecem proteção contra a inflação e renda de longo prazo
Em um cenário econômico global e nacional marcado pela volatilidade dos juros, guerras comerciais e pressões inflacionárias persistentes, o mercado financeiro resgatou um conceito clássico: a busca por valor tangível. Os chamados ativos reais, que engloba ativos dos setores de infraestrutura, imóveis, terras agrícolas, commodities, energia renovável e florestas, deixaram de ser um nicho exclusivo de grandes fundos globais para ganhar protagonismo nas carteiras de diferentes perfis de investidores.
A migração de capital em direção à economia real tem sido expressiva. Dados recentes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e da B3 apontam que os fundos e títulos atrelados a ativos reais atingiram marcas históricas no País. O volume de emissões de debêntures incentivadas de infraestrutura atingiu R$ 62,5 bilhões em 2025, o que representa 46,3% do total emitido ao longo de 2024 — ano que registrou recorde histórico. Enquanto isso, o patrimônio líquido dos Fundos Imobiliários (FIIs) e dos Fundos de Investimento em Cripto e Infraestrutura (FI-Infra) ultrapassou centenas de bilhões de reais, impulsionado por mais de 2,5 milhões de investidores individuais.
No plano internacional, esse movimento reflete uma mudança estrutural na alocação global de recursos. Levantamentos de órgãos de inteligência de mercado, como os relatórios anuais da Preqin e estudos da consultoria McKinsey, apontam que a alocação em ativos reais saltou de marcas historicamente abaixo de 10% para um patamar entre 15% e 25% da carteira dos maiores fundos soberanos e de pensão do planeta — a exemplo do canadense CPP Investments e do gigante japonês GPIF. Essa alocação se divide principalmente entre obras de infraestrutura essencial, ativos imobiliários e projetos de transição energética.
Por que investir em ativos reais?
Diferentemente de ativos estritamente financeiros ou derivativos, os ativos reais têm existência física ou estão diretamente atrelados a serviços essenciais da sociedade. Então, o que levar em conta antes de investir é bem distinto.
A principal vantagem desse modelo é a proteção natural contra a inflação, uma vez que contratos de energia, transporte, moradia e saneamento costumam ter reajustes atrelados ao IPCA ou IGP-M, preservando o poder de compra real do investidor. Além disso, ativos operacionais geram renda recorrente por meio de tarifas ou aluguéis e apresentam baixa correlação com o mercado financeiro tradicional, o que reduz a volatilidade do portfólio.
Em um cenário de incerteza macroeconômica a nível global, investir em algo literalmente concreto passa a ideia de algo mais certo e seguro, motivo pelo qual esses tipos de ativos atraem mais recursos. Trata-se de algo palpável, que de fato irá trazer uma proteção ou renda mais estável, algo que parece menos instável diante de tantas interrogações.
Por outro lado, os principais desafios estão na menor liquidez. Vender um bem físico ou uma participação em concessão leva tempo e negociação, sem contar que o valor depende do momento do mercado e até da urgência da necessidade de quem desembolsou recursos para a aquisição do ativo. Isso sem contar a necessidade de gestão constante e investimento em manutenção para evitar a depreciação dos equipamentos e instalações.
A construção dessa tese de investimento se desdobra de maneiras diferentes dependendo de quem aplica o capital. Para a pessoa física, os ativos reais surgem como a ferramenta ideal para a formação de patrimônio de longo prazo e planejamento de aposentadoria. Ao acessar esse mercado por meio de fundos e títulos de infraestrutura, o pequeno e médio investidor consegue proteger seu dinheiro contra a inflação e gerar um fluxo constante de renda passiva, muitas vezes contando com isenção de Imposto de Renda. É a oportunidade acessível de se tornar sócio de grandes obras e serviços do dia a dia do País.
Já para as empresas e gestoras especializadas, a tese foca no ganho de eficiência e valorização do capital investido. Essas companhias identificam ativos com potencial de melhoria, aportam dinheiro para modernizar as operações e ampliam a margem de lucro do negócio. O objetivo final é rentabilizar a operação ao longo dos anos via dividendos e vender o ativo totalmente consolidado por um valor expressivamente maior no futuro.
Para os governos, os ativos reais são a chave para solucionar o déficit histórico de infraestrutura. O setor público utiliza esses bens como lastro para leilões de concessões e Parcerias Público-Privadas. Ao passar a gestão de portos, rodovias, aeroportos e redes de saneamento para o setor privado, o Estado garante que esses serviços recebam os aportes necessários para sua modernização contínua sem sobrecarregar o orçamento público, gerando um efeito multiplicador de produtividade e crescimento para toda a economia nacional.