O que é crédito estruturado e como ele amplia as opções de financiamento
Entenda como essas operações conectam empresas, projetos e investidores no mercado de capitais
Pense na construção de grandes prédios e rodovias e até na antecipação de recursos para o agronegócio. Parece não haver relação entre tudo isso, mas há: o motor invisível que financia essas e outras ações é chamado crédito. Antigamente, apenas grandes bancos conseguiam financiar grandes projetos. Hoje, este cenário mudou – pela primeira vez, em 2025, a oferta de crédito via mercado de capitais superou o crédito corporativo bancário no Brasil. Além disso, o mercado de crédito chegou aos pequenos investidores – com a diversidade dos fundos listados na B3 (como os FI-Infra e os fundos de papel), qualquer pessoa consegue comprar uma cota de R$ 10 ou R$ 100 e passar a ser credora de dezenas de operações de crédito estruturado ao mesmo tempo.
Um marco importante para o mercado de crédito foi a nova regulação de fundos que permitiu que um novo tipo de crédito chegasse ao investidor comum – o crédito estruturado. Tal movimento só é possível porque um tipo de fundo, chamado FIDC, está acessível para o público em geral.
De forma simples, o crédito estruturado é uma operação de financiamento feita sob medida para atender às necessidades específicas de uma empresa ou de um projeto.
Diferentemente de um empréstimo bancário padrão, em que taxas, prazos e condições são rígidos e predefinidos pelo banco, o crédito estruturado funciona como uma alfaiataria financeira. Tudo é desenhado sob medida de acordo com a demanda das companhias e restrições dos financiadores, levando-se em conta, por exemplo, os objetivos do projeto que será feito com aqueles recursos, histórico de quem será o devedor e condições de pagamento.
Nesse modelo, os recursos não saem diretamente do caixa de um banco comercial. A empresa emissora cria um título de dívida personalizado e o coloca à venda no mercado de capitais. Quem financia a operação, portanto, são os próprios investidores (pessoas físicas, fundos de investimento ou grandes instituições) que compram esses títulos na expectativa de receber o dinheiro de volta com juros no futuro.
A “mágica” do crédito estruturado está nas garantias e na fidelidade do fluxo de caixa. É preciso que a companhia tomadora assuma que tem condições de arcar com a dívida por meio de um recurso seguro e recorrente. Para convencer o mercado de que é seguro emprestar o dinheiro, a empresa pode alienar ou travar recebíveis futuros e outros bens.
Uma construtora que está erguendo um prédio residencial pode usar as prestações que os compradores dos apartamentos vão pagar ao longo dos próximos anos como garantia direta para os investidores que compraram os seus títulos de crédito estruturados. Ou uma grande usina de açúcar e etanol precisa de dinheiro à vista para comprar colheitadeiras e modernizar seu parque industrial antes do início da safra. Em vez de esperar receber as vendas da colheita, a longo prazo, para arcar com a dívida, passa a negociar créditos de recebíveis agrícolas Bolsa de Valores.
A seguir vamos explicar melhor como alguns desses contratos funcionam.
CRI, CRA e FIDCs
O processo de transformar dívidas e recebíveis em ativos negociáveis, os chamados “títulos securitizados”, passa por essas três siglas principais.
- CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários)
É o título que financia imóveis no setor imobiliário. Uma empresa que possui contratos de aluguel de longo prazo de vários shoppings ou galpões logísticos pode reunir esses recebíveis futuros em um CRI. Ela recebe o dinheiro à vista para fazer novas obras, e o investidor que compra o CRI passa a receber mensal ou semestralmente os valores desses aluguéis acrescidos de juros até chegar o prazo de vencimento do título adquirido – quando ele recebe o valor investido mais os ganhos combinados do período.
- CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio)
Funciona exatamente como o CRI, mas é o combustível financeiro do campo. Cooperativas, produtores de grãos ou indústrias de fertilizantes emitem o CRA para financiar safras, comprar maquinários ou expandir terras, dando como garantia a venda futura da produção de soja, milho ou gado.
A vantagem do investimento no CRI e CRA também é fiscal. Para incentivar o desenvolvimento desses setores vitais, o governo federal concede isenção total de Imposto de Renda sobre os rendimentos para pessoas físicas.
- FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios)
Os FIDCs são fundos de investimento que compram direitos creditórios de diversos setores de uma só vez. Imagine uma grande rede de varejo que vende milhões de produtos parcelados no cartão de crédito. Em vez de esperar meses para receber cada parcela, ela vende esses direitos de receber (os direitos creditórios) para um FIDC com um pequeno desconto. O fundo se apropria do direito de receber esse fluxo de pagamento, no seu valor total acordado, transformando o desconto da compra em resultado para os seus cotistas.
Outro exemplo: uma rede de clínicas odontológicas realiza milhares de tratamentos estéticos e implantes parcelados para seus clientes no boleto ou no cartão de crédito em até 24 vezes. Para não ficar sem dinheiro no caixa para pagar aos dentistas e comprar materiais básicos hoje, a rede vende esse direito de receber as parcelas futuras para um FIDC com um pequeno desconto. A rede pega o dinheiro à vista, e o fundo (composto por dinheiro de vários investidores) assume o direito de receber as mensalidades dos pacientes ao longo dos dois anos seguintes.
Ao contrário dos CRIs e CRAs, que possuem isenção fiscal para pessoas físicas, os FIDCs seguem regras de tributação específicas e o imposto incide sobre os rendimentos.
Antes de investir
Como essas operações envolvem um risco um pouco maior do que deixar o dinheiro no Tesouro Direto ou em um CDB de um banco, as taxas de juros oferecidas são substancialmente mais altas.
Mas claro que, como todo investimento, aplicações assim requerem cuidado. Além de conhecer melhor seu perfil investidor, antes de aplicar seu dinheiro é preciso avaliar a capacidade de a empresa investida honrar a dívida, já que títulos de crédito estruturados não possuem a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A leitura dos relatórios de agências de classificação de risco (as agências de rating) e a escolha de fundos geridos por profissionais experientes tornaram-se passos fundamentais.
